sexta-feira, 30 de abril de 2010

Eu até tinha outro texto pronto, mas, esse foi demais!

Eu sou gordo em um país em que somos considerados minorias, embora quando estamos mais de dois em um mesmo ambiente, pareça que somos a maioria, não importando o tamanho do local. O fato é que ocupamos mais espaço territorial e mesmo em menor número acabamos nos tornando maioria, entende?
Quem vê um gordo, logo associa a sua imagem a de uma pessoa de vida fácil, um grande comilão que passa o dia jogado em um sofá assistindo sessão da tarde. Não adianta disfarçar, você mesmo que esta lendo este texto, já pensou isto de um companheiro arredondado.
O fato é que nem todo gordo é assim, em geral somos trabalhadores esforçados até demais. Isso mesmo, esforçados mais que a maioria das pessoas. Não porque nos empenhamos mais, mas porque para nós qualquer tarefa simples se torna um grande embate.
Você está no escritório e sua caneta cai em baixo da mesa, fácil não?
Não para nós, isso para nós pode significar o que de pior poderia ter acontecido no dia, não adianta esticar o braço, nem escorregar um pouco pela cadeira, nós temos que nos levantar, tirar a cadeira do lugar, então se lançar ao chão, de joelhos, entrando de baixo da mesa sob olhares atentos de todos no departamento, pegar a caneta com a ponta dos dedos, colocá-la entre os dentes e então, apoiando uma das mãos na cadeira e a outra na mesa ir se erguendo, vagarosamente, depois disso tudo, colocar a cadeira no lugar e se sentar, afrouxando a gravata e suando em bicas com a respiração de um maratonista no final dos 50 Kms.
Mas não pense que estamos felizes com nossa circunferência, muitas vezes tentamos afinar um pouco, procuramos ajuda médica e em ultimo caso eles: os Vigilantes do Peso.
Os vigilantes do Peso é uma destas instituições que tenta recuperar cidadões considerados irrecuperáveis pela sociedade, nós gordos estamos entre estes irrecuperáveis, ao lado de alcoólatras, dependentes químicos e mulheres que amam demais, só para citar alguns. No entanto os alcoólatras são anônimos, os dependentes químicos são anônimos, a mulheres amorosas em demasia são anônimas e nós? Além de não podermos ser anônimos ainda temos vigilantes.
Deve ser engraçado uma reunião dos vigilantes. Chega o gordinho todo tímido e diz “Meu nome é Roberto, tenho 32 anos e... sou gordo!” e caem todos em uma enorme gargalhada, inclusive o novo gordo a ser vigiado. Ainda bem que a maior virtude do gordo é saber rir e fazer rir. Na saída ainda todos tem que passar pela pizzaria que se instalou logo na esquina só de sacanagem. Cheiro de manjericão em pizza de muzzarela depois da reunião dos vigilantes, nem Hitler imaginaria tal maldade!
Mas o maior terror na vida de um cidadão avantajado é o chamado “retorno médico”, nada tira mais o sono. Dividas com agiotas, reunião com o patrão mal-humorado, prova de matemática em inglês... tudo isso você tira de letra, mas o retorno ao médico depois de um mês, para ver quantos quilos foram eliminados... isso sim é motivo de insônia. No mês passado o médico me disse que, se eu me esforçasse, eu conseguiria perder até 15 quilos, mas sabe como é... aniversário da tia do vizinho, churrascada na casa de um parente da namorada de meu primo... foi um mês bem agitado. E eu aqui, quase cortando fora uma perna pra chegar aos 15 quilos eliminados, o doutor não especificou como eliminar esse peso.
Desde que eu comecei esta minha décima oitava dieta eu tenho vivido na pele a tal da crise de abstinência. Quando consigo um croissant, como de forma rápida, escondido, normalmente abaixado ao lado de uma latrina de algum banheiro publico. Antes me certifico de que ninguém me seguiu. Depois que termino choro que nem criança, prometo pra mim mesmo que aquele era o ultimo, mas logo estou as voltas com uma latinha de Coca-cola. Ligth é claro! Mas o pior mesmo é colocar óculos escuros, toca, casacão e ir comprar doce na porta de uma escola infantil longe da minha casa. Disfarço e bem baixinho eu peço: “Aê mano, me vê uma Trufa!” e o vendedor “Doce de leite ou nozes?” e eu “Porra tio... não embaça!”

Texto de: David Castillo

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